quinta-feira, 30 de abril de 2009
últimos poemas escritos
Que partam para longe os poetas!
Esses sim ridículos.
Os intelectuais que dêem lugar aos bandidos.
Sou um bandido, um famoso.
Como carne todos os dias
E não tenho modos pela noite.
Não conheço mulher ou homem que não me admire
E admire as minhas riquezas.
Não sei ler ou escrever.
Apenas sei que você não precisa ler ou escrever
Se o que vale é a palavra dita e escarrada.
Escarre aqui! Isso, assim.
E dê adeus à arte.
É inútil e consome tempo. Tempo em que estaria fazendo coisas melhores
Que fantasiar a própria grandeza. Fazê-la! Sim, fazê-la.
Pare de se iludir.
Hahaha
Hahahahahahaha!
Meu Deus, você é tão iludido.
E pensava que seus versos seriam reconhecidos na posteridade?
Quando morresse? E suas cartas, pomposamente adjetivadas, reconhecidas
Como tesouro?
O que vale é o sonho americano.
A bebida boa, a bebida farta.
As mulheres...
E não, isso não é uma crítica, parvo.
Não é não.
Não estou dizendo que sou assim para caricaturizar um estereótipo.
Não é uma sátira.
Pensou que que era mais um asno corroendo a credibilidade do que você nega?
Negue isto: você será esquecido.
Já negou? Já foi.
Ultraromântico.
Orgulho-me de não falar sobre os sentimentos.
Não gosto quando os poetas se gabam de escrever poemas sobre sentimentos.
Existem coisas mais nobres e belas porque não estão em movimento
E nem comovem e nem esperam a aprovação dos que se comovem
Porque elas guardam em si um sentido menos profundo e mais humano que os sentimentos.
Orgulho-me de não ser aventureiro.
De não ser romântico e não conhecer as flores.
De pisar sobre o tesouro da nossa dita poesia e de ser insensível a ela.
Eu não sei falar sobre os sentimentos e nem sei ler poesia. Tudo o que compreendo são grunhidos e as necessidades básicas do ser humano.
Gosto dos números.
Eles não mentem. Eles não escolhem. São fixos de forma que o dois sempre será o dois
E em sua abstração, em sua imaterialidade, são imutáveis
Eternos.
Não gosto da morte e nem das coisas valorizadas. Gosto do desvalor, da riqueza ociosa, da ignorância, do Brasil imerso no preconceito.
Gosto desses noticiários alienantes, dos aquários e da previsibilidade.
Talvez nunca seja o rebelde, talvez sempre o submisso, o camarada, o fácil.
Talvez nunca saiba falar sobre os sentimentos e talvez nunca me gabe de escrever poesia.
Eu não amo ninguém.
A Flor
No asfalto úmido pelas luzes da cidade
Encontrei uma semente
Esfera estranha e mal cheirosa.
Já esqueci como se escreve sobre isso.
A flor... o que sei sobre ela?
Tenho uma semente, regada pela urina dos cães da cidade...
E um poema? Não sei falar ou escrever.
Talvez acabe me esquecendo de tudo isso
E a jogue para o alto.
Mas vamos... vamos tentar:
A flor cresce ignorada no meio da cidade
E ... e a beleza advém da contradição.
Uma flor, belíssima e efêmera - o poeta!
O poeta? Suas pétalas deslizando na escuridão.
O carbono injetando em sua corola o azul venenoso do céu.
Ah! Ah! Sofro...
Sofro de tocar nessa flor invisível e nascida do silêncio.
O escarro dos motores... o escarro, o vil escarro..
Ai, meus dedos... não toco, não sinto, não cheiro.
É uma semente... e não há o que dizer sobre ela.
Ela cresce, seus espinhos... - e a Musa, afundando sua cabeça no oceano côr de papoulas
Isso! Seus espinhos furtivamente roubam o sangue
O sangue de quem os toca.
Furtivamente a rosa
Que é bela, mata.
?-mina
I
Se eu lhe der o que você quer
Você me dá
Quero? O que eu
Eu não sei o que quero. E se você me dar
Não Sei. Tudo o que sei
É que estou só.
Na minha cabeça Zilhões de moscas
Zilham. Zilhões e zilhões.
E uma teia binária de zeros me zeram.
Zilhões de zeros é zero.
E sempre será.
Então, se sou zero. E tenho zilhões de zeros para lhe dar.
Em troca. Não me dará. Nada. E será justo.
Que eu torne ao nada e ao zero.
II
Sobre a mesa cirúrgica está a Musa.
E eu já vasculhei seus intestinos todos
Fétidas, suas vísceras verdes
Comeram todo o ninho de víboras que crescia em seus pulmões.
Por isso o hálito: ácido e seco.
E os olhos, duas órbitas
Planas como aquele mapa antigo e amarelado debaixo da mesa.
O austro descolore o seio esquerdo
E uma cicatriz, em forma de X,
Delimita em um raio inferior à três centímetros
O tesouro cancerígeno dos seus rins.
Um Céu Amargo
Grávido de arranha-céus
Arranhando azul a garganta
E de torres, espelhos gotejantes de magma,
Destruídos na borda áurea do sol
Mancha, esse céu venal e abrupto,
Os olhos de uma criança que o imita em pleno vôo
A cair para o céu, duro e cinza de granizo
Como uma ave no porto, diante de um mar revolvido pelo grito
Abro os braços para o céu, ele imita, as nuvens:
Pássaros negros carregados de chuva.
Sangram nos buquês e nas marquises de mármore
À forma azul e magra das árvores.
Vocês são fracos, e eu estou cansado, cansado demais do luto. Também não quero esse otimismo vil e falso. Quero outra coisa, outra que seja mais digna das minhas condições supra-humanas. Não sou exatamente um deus, mas algo semelhante a um animal com status de deus. Sou um animal divino, e se me vissem, amigos, eu lamentaria ter de destroçar-lhes as costelas e beber de seu sangue. Seria aprazível para o meu paladar acostumado ao fel dos seus poemas.
Eu berraria, sim. Urraria. Potente como o trovão, balançaria as copas das árvores e revolveria seus intestinos. Odeio a falsidade e a nobreza. E odiando, assim, também a arte, pergunto a vocês: porque elevam-se pelo sofrimento? Não seria mais insensato e cruel serem os causadores dele? Não estaríamos em condições mais deliciosas sendo os carrascos de nossos carrascos? Eu proponho um novo caminho, este mais cruel e prazeiroso, mas para tanto, meus queridos amigos, será preciso que vocês sirvam de alimento, de alimento para esse caminho, de adubo para essas novas flores venenosas, carnívoras, exóticas e feias. A beleza está na suprema agressividade de seus traços assimétricos, de suas corolas azuis e seus cálices repletos de ungüento. Louvemos o sol que castiga nossa pele e acobreia o fundo dos nossos olhos com a sua chama destrutiva. Eu romperei minhas correntes e ofertarei, pessoalmente, meu rim aos criminosos.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Em útero de porcelana
Nasce, da semente silenciosa
Uma flor, as pétalas vibrando como o vento
A nota azul e murcha que lambe os cata-ventos
Um raio vermelho desaba, mutilando a verde sombra
Que rasgava o céu plástico de fôlhas.
Um outono induzido arranca com mãos búdicas
O ouro ardente dos olhos sonolentos.
O Vaso Chinês
Teu útero, frio, é liso como a porcelana
E eu o lambo, muito devagar.
Quero que dentro dele fecunde meus sonhos e meus pesadelos
E se torne a flor artificial que carrego nas mãos.
É o meu coração, esta belíssima flôr.
O Vaso Chinês
Abaulado esquife
Tua mão sobre o peito inchado de ar
Sobe e desce; flores parecem surgir na carne viva
Do teu lábio inferior, vermelho, vermelho.
A luz fria da manhã procura o seio
Enquanto um rio de seda corre os ombros
Quebrando na orla do teu joelho.
quarta-feira, 8 de abril de 2009
Ouçamos a confissão de um Companheiro do inferno: "Ó divino Esposo, meu Senhor, não repilas a confissão da mais triste de tuas servas. Estou perdida. Estou bêbada. Estou impura. Que vida!" "Perdão, divino Senhor, perdão! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E quantas lágrimas ainda espero!" "Mais tarde, conhecerei o divino Esposo! Nasci submissa a Ele! - O outro pode bater-me agora!" "No momento, estou no fundo do mundo, ó minhas amigas!.. não, não sois minhas amigas... Jamais delírios nem torturas semelhantes... É idiota:" "Ah! sofro, grito. Sofro de verdade. Porém tudo me é permitido, carregada de desprezo dos mais desprezíveis corações". "Enfim, façamos esta confidência, com a reserva de repeti-la vinte vezes ainda, - tão morta, tão insignificante!" "Sou escrava do Esposo infernal, aquele que perdeu as virgens loucas. É esse demônio mesmo. Não é um espectro, não é um fantasma, Mas a mim, que perdi a sabedoria, que estou condenada e morta no mundo, - não me matarão! Como vo-lo descrever! Já nem mesmo sei falar. Estou de luto, choro, tenho medo. Um pouco de ar, Senhor, se assim o desejas!" "Estou viúva...- Estava viúva...- Sim, fui muito honesta antigamente e não nasci para tornar-me esqueleto!... - Ele era quase uma criança... Seduziram-me as suas misteriosas delicadezas. Esqueci todo o meu dever humano para segui-lo. Que vida! A verdadeira vida está ausente. Não estamos no mundo. Vou aonde vai ele, é preciso. E com freqüência ele se encoleriza contra mim, contra mim, a pobre alma. O Demônio! - É um demônio, vós o sabeis, não é um homem".
"Ele diz: "Não amo as mulheres: sabemos que o amor está por ser reinventado. Já não podem desejar senão uma posição segura. Alcançada, o coração e a beleza são postos à margem: não resta senão álgido desdém, o alimento do casamento, hoje, Ou então vejo mulheres, com os sinais da felicidade, mulheres das quais eu poderia fazer boas amigas, devoradas por brutos desde o primeiro momento sensíveis como fogueiras"... "Ouço-o fazer da infâmia uma glória, da crueldade um encanto". Eu sou da raça antiga: meus pais eram escandinavos: traspassavam-se as costelas, bebiam o próprio sangue. - Ferirei todo o meu corpo, tatuar-me-ei, quero ser horrível como um mongol: verás, urrarei em plena rua. Quero ficar louco de raiva. Nunca me mostres jóias: arrastar-me-ia e me contorceria sobre a relva. Minha riqueza, quisera-a toda enodoada de sangue.
Nunca hei de trabalhar..." Certas noites, seu demônio apoderando-se de mim, nós rodávamos, eu lutava com ele! - Às noites, freqüentemente bêbado, escondia-se nas ruas ou nas casas para assustar-me mortalmente. - "Cortar-me-ão na verdade o pescoço; será asqueroso". Oh! esses dias em que ele quer caminhar com aspecto de crime!" "Algumas vezes fala, numa espécie de patoá enternecido que traz o arrependimento, dos infelizes que certamente existem, dos trabalhos penosos, das partidas que despedaçam os corações. Nas tascas em que nos embriagávamos, punha-se a chorar ao pensar nos que nos rodeiam, rebanho da miséria. Erguia os bêbados nas negras ruas. Tinha piedade de uma mãe perversa para com os filhinhos. - Portava-se com uma graça de menina, a caminho do catecismo. - Afetava tudo saber: comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, era preciso! "Eu via toda a decoração de que, em espírito, ele se rodeava; vestidos, panos, móveis: eu lhe emprestava armas, outro rosto. Eu via tudo o que lhe interessava, como ele quisera criá-lo para si próprio. Quando me parecia que seu espírito estava inerte, eu o acompanha, por mim mesmo, em ações estranhas e complicadas, longe, boas ou más: estava perfeitamente segura de que nunca penetraria em seus mundo. Ao lado de seu corpo amado adormecido, quantas horas da noite não velei, perguntando-me porque tanto porfiava ele em evadir-se da realidade. Jamais homem algum fez tal voto. Advertia-me, - sem temer por ele - de que bem podia ser um grave perigo para a sociedade. - Acaso possuirá segredos para transformar a vida? Não, não faz mais que procurá-los, respondia a mim mesmo. Sua caridade está enfeitiçada e retém-me prisioneira. Nenhuma outra alma a não ser a minha teria bastante força - força de desespero! - para suportá-la, para ser protegida e amada por ele. Além disso, não o imaginava com outra alma: vê-se seu Anjo, nunca o Anjo de nenhum outro, creio eu. Eu habitava em sua alma como em um palácio que se desocupou para não se ver nele uma pessoa menos nobre que vós: eis tudo. Ai! eu dependia por completo dele. Mas, que queria ele de minha existência opaca e covarde? Não me tornava melhor, se não me fazia morrer! Tristemente despeitada, eu lhe disse algumas vezes: "Compreendo-te". Ele dava de ombros. "Assim, como renovasse sem cessar meu sofrimento, e sentindo-me a meus próprios olhos ainda mais perdida, - como diante de todos os olhos que quisessem contemplar-me se não estivesse condenada para sempre ao esquecimento de todos - aumentava cada vez mais minha fome de sua bondade. Seus beijos e abraços eram um céu, um sombrio céu no qual eu entrava, e no qual desejaria que me abandonasse, pobre, surda, muda, cega. Eu começava a habituar-me. Considerava que éramos duas crianças boas; livres para passear no Paraíso da tristeza. Compreendíamo-nos. Comovidos, trabalhávamos juntos. Mas, após uma penetrante carícia, ele observava: Quando eu me for, que estranho te parecerá tudo porque tens passado. Quando já não tenhas meus braços em torno de teu pescoço, mas meu coração para reclinar-te, nem esta boca sobre teus olhos. Porque um dia terei que partir para muito longe. Além disso, tenho que ajudar a outros: é meu dever. Ainda que isso não seja lá muito agradável... amada criatura". Imediatamente eu o imaginava distante, e me sentia presa de vertigem, relegada à mais espantosa das sombras: a morte. Obrigava-o prometer que não me abandonaria. Vinte vezes me fez essa promessa de amante. Era tão frívolo quanto eu, quando lhe dizia: "Compreendo-te". "Ah! Jamais tive ciúmes dele. Não me abandonarás, creio. Que faria? Não possui conhecimentos, nunca trabalhará. Quer viver sonâmbulo. Bastaria a sua bondade e caridade para dar-lhe direito no mundo real? Por um instante, esqueço o estado lastimoso em que caí: ele far-me-á forte, viajaremos, caçaremos nos desertos, dormiremos sobre o empedrado de cidades desconhecidas, sem auxílios, sem queixa. Ou ao despertar, as leis e os costumes terão mudado, - graças a seu mágico poder; ou o mundo, permanecendo igual, abandonar-me-á a meus desejos, a minhas alegrias, a minhas indolências. Oh! Dar-me-ás a vida de aventuras que existe nos livros infantis a fim de me recompensar de quanto tenho sofrido? Não posso. Ignoro meu ideal. Declara-me que sente remorsos, que tem esperanças: isto não deve importar-me. Fala com Deus? Talvez devesse eu mesma dirigir-me a Deus. Estou no mais profundo abismo, e não sei mais rezar". "Se me explicasse suas tristezas, compreende-las-ia melhor que suas zombarias? Ele me ataca, durante horas a fio me humilha por tudo que me tem comovido no mundo, e fica furioso se me ponho a chorar". “- Estás vendo este elegante jovem que entra numa bela e tranqüila residência? Chama-se Duval, Dufor, Armando, Maurício, que sei eu? Uma mulher decidiu-se a amar este perverso idiota: está morta; certo é agora uma santa, no céu. Causarás a minha morte como ele causou a dessa mulher. É nosso destino, o dos corações caridosos..," Ai! dias havia em que os homens afiguravam-se-lhe joguetes de delírios grotescos; punham-se a rir horrivelmente, por muito tempo.
- Depois recuperava seus modos de jovem mãe, de irmã mais velha. Se fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas também sua doçura é mortal. Estou submetida a ele. - Ah! Estou louca!". "Um dia, talvez, desaparecerá maravilhosamente; mas preciso saber se voará para algum céu, para que eu veja, ainda que por um pouco, a assunção de meu amiguinho". Que casal risível!
segunda-feira, 30 de março de 2009
- Odeia o modo como contra-argumento mesmo sabendo que não tenho razão.
- Odeia o fato deu ser egoísta e de sempre pensar primeiro no meu próprio prazer.
- Odeia o fato de que isso a deixe insegura, e faça com que pense que eu não te ame mais.
- Odeia o fato deu ser indiferente junto dos nossos amigos e nunca preencher tuas expectivas na frente deles.
- Odeia o fato deu ser preguiçoso e muitas vezes indolente.
- Odeia o fato deu sempre remar contra a maré, mesmo que isso signifique que eu tenha que remar contra ti.
- Odeia o modo como me armo e visto a minha armadura; de como eu nunca choro e nunca quero chorar na tua frente. Isso te dá a sensação de que me protejo de ti.
- Odeia o modo como faço as coisas sem pensar, apenas pensando no meu próprio instinto, mesmo que isso signifique te esquecer.
- Odeia o fato de que eu possa ser estúpido, ás vezes por poucas coisas ou nada, apenas explodir como um balão que ocasionalmente estava muito cheio de água.
- Odeia em mim o fato deu sempre parecer indiferente; que eu provavelmente não me importe se você está tentando dormir apesar da angústia que algumas vezes te faço sofrer.
São os meus defeitos. Eu sou absurdamente egoísta. Eu sempre tento aparentar indiferença. Sempre me protejo e quase posso dizer que gosto de entrar em conflito com as coisas. Sou idealista, sonhador e mesquinho. Sou cínico, e com certeza não sou a melhor pessoa que você vai encontrar pela vida...
Mas, apesar disso, quero que me acolha. Apesar de ser egoísta, quero poder aprender a pensar em ti. Apesar de sempre tentar aparentar indiferença, nos meus olhos pode ver que as tuas palavras me atingiram, e é exatamente por isso que escrevo esse post. Mesmo que não vá ler, tudo bem. Meu ideal e o meu sonho é poder permanecer junto de ti, se não tal como sou, melhor, ainda melhor do que eu sou. Se posso ser cínico, também posso ser verdadeiro, e a verdade que quero expor é exatamente esta: eu nunca te abandonei e nem vou te abandonar.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Da Academia
Já estou me cansando da Academia. É um lugar grande, onde se troca conhecimento, se faz amigos, se desenvolve o saber? Talvez 40% disso seja verdade, mas pelos os outros 60% do verdadeiro espírito da Academia eu a chamaria de modo diferente: coliseu.
Para começar, a Academia é um lugar preparatório para a guerra. Os filhotes vem de seus recantos paradisíacos burgueses, e lá são batizados com todo o tipo de meleca e tinta (alguns precisam passar ridículo). É um ritual importante de socialização, e quem não o fizer é um excomungado, um exilado das relações humanas. Nesse ritual os filhotes se sentem ainda mais filhotes, e assumindo esse caráter de filhote e brinquedo, divertem-se sendo a diversão dos temidos 'veteranos'.
O primeiro semestre é assim: comentamos baixinho que os filhotes, os bixos, são pretensioso, arrogantes, crianções, que gostam de levantar o dedo mas sempre pra falar besteira, que são aplicados mas "nada entendem da verdadeira essência dos saberes", e essas fanfarronices de nós, veteranos.
No segundo semestre o filhote já não é mais filhote, mas ainda não tem filhotes para atormentar. Dessa forma passam seu tempo, ainda um tanto inseguros como no primeiro semestre, reclusos e procurando alguma forma de adquirir mais saberes e passar nas cadeiras.
No terceiro semestre repete-se o ciclo, e assim por diante, até o infinito. Os veteranos serão sempre os veteranos, mais sábios, superiores; os filhotes deixaram de ser filhotes, eventualmente, e essa hierarquia tende apenas a crescer com o nascimento de alguns muitos partidos que se autoelegem dentro da faculdade, como os sociais-democratas, os hippies e os Anarquistas (os quais inclusive fizeram a gentileza de saudar os bixos nos primeiros dias de aula).
A UFRGS tem o vício enojante de falar coisas 'esquerdistas'. Qual o quê! Que bobagem! Onde já se viu um partido anarquistas se auto-elegendo no meio dessa barulhada? É muito ridículo, principalmente porque pra eles anarquismo significa festa e baderna. Ou os sociais-democratas, que apesar de vomitarem muitos bordões psicopedagógicos e humanitários (e promoverem muitas caminhadas ao ar livre para protestar), quase nada fazem em relação aos problemas internos da faculdade em que eles próprios estudam. Os hippies só querem sentar na grama e relaxar.
A Academia não é grande coisa, não. É uma bolha, como disse o meu primo. E ele tem toda a razão. Você se afasta não sei quantas dezenas de quilômetros do centro da cidade, onde só há mato e ferro-velho, passa por uns morros e está no Campus do Vale: um retiro para ermitões. Aqueles ares, tão estranhos ao ambiente urbano, te fazem esquecer que há uma vida acontecendo, ás vezes sobre quatro rodas, mas tudo o que consegue ver na tua frente são alguns salgueiros e uns textos sobre a teoria literária da escola de Frankfurt.
Você chega lá e simplesmente exercita um conhecimento tão teórico, mas tão teórico, que professor algum ensinaria a alunos do ensino médio. O pior não é o conhecimento teórico em si, mas o valor que se lhe atribuí. As aulas são coliseus de verdade, no sentido de que sempre tem alguém pra te contra-argumentar. O problema não é o ato, mas a intenção: eles contra-argumentam porque gostam de dar showzinhos. Eles discutem com os professores, expõe suas idéias 'maneiras, cara', armam barraco em sala de aula (e até, não sei onde!, encontram espaço para falar sobre alienação e a luta revolucionária contra a alienação) tudo porque a professora quis ceder um espaço para falar sobre a matéria em desenvolvimento.
Sabem daquelas pessoas que levantam a mão só para falar besteira? Ou ainda aquelas, que qualquer coisa que o professor ou o aluno fala, ela diz: "não podemos generalizar, né? tudo é relativo..."? Aff! É ÓBVIO QUE TUDO É RELATIVO, CRIATURA, mas se estamos tentando chegar a uma conclusão sobre alguma coisa, precisamos adentrar em algum nível de generalização. A teoria não pode lidar com níveis de relatividade, porque ela procura elementos comuns. É como na ciência, e mesmo o estudo literário precisa ter um quê científico, objetivo. Mas não! Sempre tem algum acadêmicuzinho impressionista que fala sobre relatividade e sentimento da alma. Bichisse.
Ou então, o coliseu fecha quando um tenta mostrar diante da professora (que faz um papel de mãe-a-ser-impressionada-pelos-filhos) que sabe mais que o outro. Ou usam o pretexto de uma aula discutida e crítica para diminuir o colega. O grande problema da Academia é a vaidade: para começar, lá na Letras, não fazemos nem estudamos NADA DE MAIS! É só literatura, um bando de caras mortos e uns textos críticos mal-escritos. É por isso que parecem tão difíceis: são mal escritos.
A poesia não surge da alma (acho que nem existe alma), mas isso não quer dizer que você possa arrogar para si algum entendimento especial da poesia, até porque ando suspeitando que os poetas escrevem sobre qualquer coisa e de qualquer jeito que lhes pareça mais bonito.
Na Academia revira-se entulhos e entulhos de culturas mortas e regozija-se disso como se fizéssemos grandes descobertas. O pior alvo para isso são os próprios acadêmicos: jovens (entre 18 e 19 anos), altamente impressionáveis, imaturos, acham isso uma maravilha e usam isso para, ás vezes, para tapar buracos em sua própria auto-estima: coitadinhos deles quando descobrirem que esse conhecimento, quando apenas acumulado, nada significa e nada frutifica de útil para a tua vida individual, que é a única coisa que interessa.
Mas sim! Invejo, do fundo do coração, aqueles que mal cursaram dois semestres e já estão usando camisa social, deixando bigode crescer, usando oclinhos de velho e andando pra lá e pra cá com dois tomos de história de literatura francesa. Ou as gurias, que mal completaram 19 anos, usam salto, maquiagem pesada e se vestem wannabe mulheres independentes. Isso é tão escroto e forçado que me dá vontade de chorar.
Já estou chorando...
Para finalizar, quase aplaudi uma garota, na FACED, que extinguiu todo o hálito pulmonar dela pra dizer que "a escola era uma bolha". Muito bem dito! Só pena que esqueceu de dizer que a faculdade também era OUTRA bolha.
E o mais triste: quem aqui pensa que na Academia se ensaia para viver a vida dos adultos, só lamento em dizer que está coberto de razão.
terça-feira, 24 de março de 2009
Sobre pseudópodes.
Acho muito engraçado que algumas pessoas tenham a enorme propensão a utilizarem a palavra pseudo- (ainda que isso seja um prefixo, hahaha!), algumas vezes para mediocrizar ou rebaixar o trabalho do outro (ou o próprio outro), muitas vezes sob o pretexo de “salvaguardar a legitimidade de alguma coisa”. Entenderam?
Vamos supor:
-“Seu argumento não esconde o que você é: um pseudointelectual”.
Essa é a que mais ouço por aí, alguém chamando o outro de “pseudointelectual” e falando sobre “pseudointelectualismo”. Mas fico me perguntando o que vem a ser uma e outra! No meu entendimento, intelectual é aquele que dispõe esforços para satisfazer alguma curiosidade intelectual, ou que estuda, pesquisa assuntos de cunho intelectual. Por intelecto temos a razão e tudo o que pode ser apreendido por ela. Intelecto é a nossa capacidade de pensar sobre as coisas, e todo o pensar sobre as coisas é um pensar crítico (negativamente ou positivamente). Mas, de tempos pra cá, essa alcunha “o intelectual” aplica-se apenas àqueles estudiosos das culturas, das áreas humanas (onde se desenvolve um senso crítico mais apurado sobre o mundo), ou aqueles que “costumam ter uma opinião sobre as coisas, uma opinião bem formada”. Os intelectuais detém o conhecimento, mas uma vez que o conhecimento não é um dado a priori, todos os intelectuais, logo, são “pessoas que buscam o conhecimento”, como afirmei anteriormente. Ok, e daí? E daí que é simplesmente impossível existir uma pessoa que falsamente se dirija ao conhecimento. Em relação à apreensão de cultura e saberes, só se pode tomar duas vias: apreender ou não-apreender.
Também dizem que o pseudointelectual “finge” que sabe; apenas recita nomes de autores que nunca leu, e apenas usa a alcunha de intelectual como uma espécie de vaidade. Discordo que existam pessoas assim, que se contentem apenas com uma falsa imagem de intelectualidade, mas penso que todas essas pessoas, geralmente jovens e/ou prematuros em sua busca pelo conhecimento, estejam apenas curiosas e impressionadas com o sem-número de saberes dos quais elas nem conhecem 1/100. Esse deslumbramento, muitas vezes infantil, pode muito bem se assemelhar ao deslumbramento que tu mesmo, intelectual douto, teve quando estava na infância do teu aprendizado. Impressionadas, muitas pessoas querem arrogar para si o triunfo de ter ler Hermann Hesse ou Sartre, mas não é porque elas o fazem, algumas vezes por orgulho de si mesmas, que isso as torna pseudointelectuais. Um verdadeiro pseudointelectual deveria se divertir de fazer os outros pensarem que ele de fato conhece o que não conhece, e para isso, meus amigos, é necessário grande esperteza e sabedoria.
Os pseudistas são pseudópodes: falta-lhes fixar o pé na terra e abandonar o terreno, muitas vezes aéreo, do ego. Ás vezes sou tentado a pensar que os mais críticos são os mais vaidosos, no sentido de que amam descrever e dissecar as coisas todas com o seu olhar, algumas vezes mau, outras vezes ambicioso, e quase sempre pretensioso. A crítica é uma pretensão e uma autopublicação, se pensarem bem. E me sinto tentado a reverter a magia contra o feiticeiro quando digo que esses críticos, que amam dizer a palavra ‘pseudo’, são os verdadeiros falsos: nunca vi uma verdadeira intenção de construir o saber, mas suas críticas são apenas destrutivas e infrutíferas; para legitimar algo que eles tomaram como exclusivo seu, alegam ser falsos todos os outros que poderiam se identificar com essa exclusividade-não-tão-exclusiva assim. Dessa forma, quantos ‘intelectuais’ não desmerecem a inteligência e as opiniões aos outros porque pensa e sente que apenas de si mesmo podem manar as verdadeiras conquistas de um autêntico intelectual? Ocorre muitas vezes a infelicidade desses infelizes encontrarem alguém que consegue fazer tanto, ou dizer tanto, quanto eles sem o esforço e o desprazer que eles mesmos sofrem. Esses, por não sofrerem e não suarem, são crianças brincando de serem sábios, não é mesmo? Pois os verdadeiros intelectuais sofrem para serem o que são e o que sempre foram.
Para finalizar, li recentemente em um blog a palavra “pseudojornalistas”. O suposto autêntico jornalista criticava esse jornalismo por não ser completo e por omitir (talvez na ótica do crítico) acidentalmente muitos detalhes do verdadeiro ser que Barack Obama é: retórico e vazio.
Não lhe tiro o direito de pensar o que quiser sobre Barack Obama, mas quem relegou a ele o direito de julgar como ‘falso jornalismo’ o trabalho de jornalista, esses profissionais e tão rodados quanto ele? Sério. Quem nos dá o direito de desmerecer e desclassificar o intelecto e o trabalho alheio, justificando tal como uma ‘crítica construtiva e justificada’?
E me pergunto mais: o que é um falso jornalismo? Jornal é uma espécie de revista que exibe fatos do dia-a-dia no mundo, certo? Notícias. Quem poderia escrever falsamente sobre fatos? Ah! E não vamos idealizar também o próprio papel do jornal:
- o jornal sim é um veículo de informações verídicas, mas desde quando essas informações não são filtradas de acordo com interesses de segundos (sendo nós os terceiros)? Afinal, jornal fala sobre o mundo, o país, a cidade, o estado: mas para alguém, e de alguma forma, e em alguns detalhes. Não é interessante fazer anti-propaganda de quem se admira, como os supostos pseudo-jornalistas, até porque, na verdade, se encararmos indivíduo por indivíduo, todos possuem dois lados: um repleto de defeitos e outro de qualidades. O suposto jornalista true falou sobre um presidente sábio, honesto, etc etc. Mas falou apenas de qualidades. Porque não listou os defeitos? Estes defeitos seriam facilmente encobertados por essas qualidades?
É preciso tomar cuidado com a crítica: pois há sempre aqueles que se regozijam muito em criticar negativamente, e são sempre aqueles que, em suas fantasias, se imaginam cumulados por uma honraria que é ter uma percepção mais apurada que a dos outros. Sempre para fora!
