terça-feira, 19 de julho de 2011

Grandes e perigosos
Como a onda
Que desgasta os corais
E desmancha as margens
do mar:
Teus olhos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

poema inesperado

Atrás desses teus olhos
eu vejo qualquer coisa sem luz.
Eu quero morrer
bem no fundo secreto dessas pesadas cortinas.
Eu não quero ser ouvido, nem ouvir.
Desaparecer.
Atrás desses teus olhos eu não quero ser nada.
Quero te ser.
Ser tu.
Atrás desses teus olhos eu sou uma
negra semente,
florescendo, lentamente,
no vazio. O meu amor não é dor
e nem ardor: é silêncio
e ondas de mar. É a tranqüilidade
do pássaro azul,
da espuma de diamantes salgados
encobrindo nossos passos.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Ironia

Tem linhas na vida que não se apagam,
Tem linhas na vida que escrevem o teu nome
Em pedra, mármore, aço, ou o que seja.

Há cores que não se esgotam,
Nem pela noite, nem quando as nuvens
Apagam o céu e o mar.

As lembranças afluem como pássaros,
Pássaros de água e ar,
batendo asas de papel fino e transparente.

Você não os vê, mas os sente,
Rasante em seus võos calorosos,
Distantes e, ao mesmo tempo, tão próximos!

O que desenhaste na areia do tempo,
desapareceu com o tempo.

O que desenhaste - eu, tua criação -
Já é sombra do que foi, e não está mais lá,
se não aí, onde mais te ocultas, teu ser inteiro:
Coração.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pássaro Negro


Tu, que desfia o silêncio dos meus gestos,
Tu, na espreita dos meus sonhos:
Eu lembro de ti.

Eu lembro quando tu, mansamente,
devorava o meu coração, abrindo uma cavidade funda e sombria.

Eu lembro quando tu, ave de Prometeu,
Puxou uma a uma as fibras do meu corpo
e da minha alma fez um ninho
crespo para o teu sono.

Tuas asas negras abraçam o vôo
do meu espírito,
E eu já não vejo cidades ou fortalezas: apenas terra e mar.

Eu vôo contigo, mas para longe de ti.
Eu para a luz, tu para a sombra,
- minha sombra.

Para as sombras das minhas mãos, para
a luz dos meus olhos,
Tu é a escuridão alegre da chuva,
Se desfazendo em bruma,
Me desfazendo.

O ruído das tuas penas, majestosas e tímidas,
sempre me desperta do meu grande e longo sono.

Tu sempre esteve aqui,
o bico molhado no meu ser,
Saudável e saciado desta fonte morna.

Tuas garras douradas, penetrando
em meus pensamentos como agulhas
ou poesia;

dor e júbilo, unidos pelo laço que
cortamos.

Enfim, demônio abrupto,
Eu já não tenho alma para vender
Em troca de felicidade, ouro, mar.

Mas a pedra que eu pensava ser
agora está coberta pelo musgo;
e a vida prolifera em mim, de dentro
para fora.

E a pedra está na costa, defronte
para o oceano,
Bela e cruel.

O mar rompe em seu dorso,
e restos de corais a vestem como um manto.

E tu? Para onde voas agora?

O céu que tomaste para ti
É uma pedrinha nua e azul,

E tu, tu, ainda esperançoso,
de que haja qualquer coisa como o destino
te esperando na outra margem,
bate as asas alegremente,
levando um pouco do que eu fui.

Mas tu, pesadelo da luz,
sempre voa para mim,
e eu sempre estou ali.

Indivisíveis, nos confundimos nas águas
e morremos juntos, plenos.

Indivisíveis, as nuvens que amaste
gravitam em minhas águas,

e tu te perdes
onde eu te encontrei:

aqui,
e para sempre.


segunda-feira, 14 de março de 2011

[...]

(Para uma amiga.)

Pode parecer uma grande idiotice, mas eu gostaria de poder te salvar. Salvar a tua alma, sabe...? Talvez assim eu pudesse ter a ilusão de que salvei a minha.

Não, eu não acredito no Demônio. Inferno, talvez... É essa tua falta de esperança nas coisas. Eu não tenho esperança em nada, também. Olha o que estou dizendo! Eu, o "grande otimista". Sou mesmo um hipócrita.

Eu também estou danado, de alguma forma. Eu sinto que já não sou mais o mesmo, tu sabe... Não tenho mais o mesmo vigor, a mesma vontade de viver. Não neste mundo, feio e medíocre. Não ao lado destas pessoas, restos de corpos ambulantes. Narizes, olhos, mãos, orelhas amputadas. Restos. Estou entre restos.

Pode parecer uma grande idiotice, mas eu gostaria de salvar a tua alma. Talvez eu recebesse um perdão do mundo, uma condecoração babaca no peito, qualquer coisa assim, que fizesse eu me sentir importante. Eu sei, eu sei que é impossível. Você já está prestes a embarcar; os ventos sopram ao teu favor. As velas, as velas! Os pequenos barcos, ao longe, singram para nenhum lugar.

O que? Eu não consigo te ouvir. - Os ventos, os ventos! - Sopram violentamente. Eles nos separam, milhas e milhas. As águas são geladas e azuis. O sol não se reflete nelas; gelado e azul ele é uma cabeça esquálida no céu. Gelados e azuis como os teus olhos, as águas embalam palavras vazias de consolo. "Eu não pude, eu...". Ontem foi domingo, e eu não fiz nada de novo. As areias descobrem minhas pegadas, e logo as encobrem outra vez com um tecido áspero de nada...

- Nada neste mundo irá perdurar.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Fumegante, o grito
Dispara a agonia do vidro
De todas as janelas desta casa.
O corpo tomba sobre seus braços;
Ele diria adeus, se tivesse dentes
Para sorrir. Vai-se silenciosamente, entretanto,
para
Nenhum lugar.
Parece dormir sobre um leito de rosas
violentas. As pétalas carnívoras embebem-se
orgulhosas.
As patas da morte desgrenham seus cabelos;
- Ela se aproxima! -
Uma língua escura
Lambe-lhe o cenho, cobrindo-o de sombras esguias.
Viram-lhe o corpo; lãminas ósseas
Escapam pelo focinho: não se parece com um homem
Enquanto não tiver um nariz de homem. No lugar
Uma cava escarlate,
Onde gênios invisíveis bebem o gole sangrento.
Belos, seus dedos congelaram: pedia socorro?
Seus olhos, azuis, fecham suas portas
Deliberadamente. Sua garganta se desmonta
Sobre o látex: um último suspiro
De sua traquéia, e a sombra daquele homem
Se desfaz.

Violento, eu nasço;
Destruindo óvulos, placenta, entranhas; devorando o fígado
e os pulmões com dentes absurdos de mármore;
o hálito da vida de minha mãe cedo
se dobra em minha língua. Nem mau
Nem bom: apenas eu, repleto
por uma camada de pêlos hirsutos,
Banhado pelo nascimento como um touro jovem e cego.
Meu coração dispara. Bomba.
Tambores tribais, enervantes, destruindo tímpanos negros,
Elevando terríveis vozes e mais vozes, pilhas de corpos horrendos,
e huris, e danças, danças ósseas diante do fogo, repletas de
membros e taças transbordantes.
Chamas sobem e descem, sobem e descem
Como pêndulos, como instrumentos de cura e navalhas
De rocha afiada, e tendões azúleos, e como os braços do amigo decepado por uma arma branca, no
deleite de um espasmo elétrico...
Nos meus olhos: caldeirão onde
o Sol deixou-se cair, há trevas sendo corroídas pela luz violenta e salgada. Nos meus olhos tudo, tudogira com imperfeição.
O mundo cai; o abismo me encontra; Eu cavalgo costelas jovens; dorsos nus;
Minha língua está em teu coração, em teu coração; Uma serpente de rubi;
e meus dedos, galhos repletos de neve de ti, secos e afiados,
digerindo tuas castas asas brancas.

Sinto o cheiro de nuvens e mar;
Corro, sobre minhas patas,
A engolir nuvens e mar.